É raro encontrar uma série que consiga ser ao mesmo tempo brutal e sutil, desconfortável e essencial. Adolescência faz exatamente isso. Com uma direção ousada, que aposta no plano-sequência para prender o espectador na tensão dos acontecimentos, a minissérie não apenas constrói um suspense envolvente, mas também levanta questões urgentes sobre juventude, internet e violência.
Desde o primeiro episódio, o espectador é imerso em uma atmosfera de tensão crescente. O uso contínuo do plano-sequência pode ser exaustivo, mas também amplifica a sensação de realismo, especialmente nas cenas que exploram os corredores frios da delegacia e os olhares incrédulos de pais e policiais diante da brutalidade do crime. A cena de Jamie chorando na viatura é um dos momentos mais impactantes, pois nos força a encarar a complexidade do protagonista sem explicações fáceis.
A escolha de ambientar o segundo episódio inteiramente dentro da escola eleva o peso da narrativa. As investigações ali parecem inúteis diante da indiferença dos adolescentes, reforçando o abismo interpretativo entre gerações. Já no terceiro episódio, a série muda seu ritmo e entrega um embate psicológico magistral entre Jamie e sua psicóloga, sustentado por atuações intensas e um roteiro afiado.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_19863d4200d245c3a2ff5b383f548bb6/internal_photos/bs/2025/a/I/NLo9N0TrAkD9MfWxHGcg/adolescencia-serie-historia-real.jpg)
Mas é no episódio final que Adolescência realmente se consagra como uma obra corajosa. O foco na família de Jamie, especialmente em seu pai, questiona o papel da masculinidade na formação do jovem e evita simplificações. Diferente de narrativas convencionais sobre violência juvenil, a série não recorre a clichês de famílias desestruturadas ou traumas evidentes. Pelo contrário: mostra uma família comum, onde pequenos gestos e influências invisíveis podem ser devastadores.
Ao trazer o impacto da cultura digital para o centro da discussão, Adolescência nos obriga a encarar um problema contemporâneo urgente: até que ponto discursos de ódio e ideologias tóxicas moldam o comportamento dos jovens? Como diferenciar um adolescente revoltado de um potencial criminoso? Com uma abordagem que lembra Precisamos Falar Sobre o Kevin e Elefante, a minissérie não entrega respostas fáceis.



